Crise no STF ganha as páginas da imprensa americana e reacende debate sobre reeleição de Lula
A sessão extraordinária do Supremo
Tribunal Federal realizada nesta terça-feira (15), marcada por bate-bocas entre
ministros e encerrada sem decisão sobre a investigação contra Alexandre de
Moraes, ultrapassou as fronteiras do noticiário brasileiro e ganhou espaço
relevante na imprensa dos Estados Unidos, que já vinha acompanhando de perto o
desgaste entre os ministros da Corte.
A Associated Press, cujo material foi
replicado por dezenas de afiliadas locais na América do Norte, descreveu o
momento como uma "crise sem precedentes" no STF, citando sessões
canceladas, decisões que se sobrepõem umas às outras e suspeitas de corrupção,
viés político e interferência policial pairando sobre parte dos ministros.
A agência destacou que o embate ocorre a
poucas semanas da eleição presidencial de outubro, na qual o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva deve enfrentar o senador Flávio Bolsonaro, filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os veículos americanos, o Wall
Street Journal tem se destacado pelo tom mais duro contra o STF e, em
particular, contra Alexandre de Moraes. A colunista Mary Anastasia O'Grady,
conhecida por sua cobertura crítica de governos latino-americanos, já havia
publicado artigo comparando a atuação de Moraes a líderes como Hugo Chávez e
Nayib Bukele, acusando-o de usar o Judiciário para consolidar poder e calar
opositores.
Em texto mais recente, O'Grady vai além
e conecta diretamente a crise institucional ao cenário eleitoral: para ela, o
escândalo do Banco Master e a briga pública entre ministros do STF se
transformaram em um problema político para Lula, e não apenas em uma
disputa jurídica interna. A colunista argumenta que o eleitorado brasileiro, já
desgastado por sucessivos episódios de corrupção, pode "tirar suas
próprias conclusões e registrá-las nas urnas" , numa referência direta ao
pleito de outubro.
Parlamentares republicanos já pediram ao
Departamento de Estado a revogação de vistos de Moraes e de outros ministros, e
o Tesouro americano chegou a sancioná-lo com base na Lei Magnitsky. Esse tipo
de pressão internacional "parece ter chamado a atenção" da própria
Corte, escreveu a colunista.
O ponto mais sensível dessa cobertura é
o efeito eleitoral. Ao associar o nome de Moraes, figura central na condenação
do ex-presidente Jair Bolsonaro e símbolo de apoio para o eleitorado lulista, a
suspeitas de proximidade com um banqueiro investigado por fraude bilionária, a
narrativa que ganha força na imprensa americana é a de que o desgaste do
STF contamina, por associação, a candidatura de Lula.
Do outro lado, a crise abre espaço para
o discurso de Flávio Bolsonaro, que já vinha capitalizando politicamente
as críticas ao STF e buscando apoio junto a setores conservadores dos Estados
Unidos.
A imagem de uma Corte dividida, com
ministros trocando acusações públicas de conduta "mafiosa" e
"leviana", reforça o argumento da oposição de que instituições usadas
contra o bolsonarismo nos últimos anos estariam agora mostrando suas próprias
fragilidades.




COMENTÁRIOS